Vitamina D: importância clínica, fontes, valores de referência e métodos de dosagem

Publicado: 01/03/2019 Por: Dr. Wagner Maricondi

Vitamina D: importância clínica, fontes, valores de referência e métodos de dosagem

Há uma década, a principal razão para solicitação de dosagem de vitamina D era a preocupação sobre a densidade óssea do paciente. No entanto, uma enorme quantidade de trabalhos tem agora implicado o pro-hormônio em uma série de condições, incluindo, entre outros, certos tipos de câncer, diabetes tipo 1, esclerose múltipla, tuberculose, doença de Alzheimer, psoríase e várias causas de mortalidade, indicando que a deficiência de vitamina D é prevalente. Ao mesmo tempo, tem também havido notável avanço tecnológico nos testes para dosagem de vitamina D, levando a confusões sobre as considerações analíticas e interpretação clínica dos resultados das dosagens de vitamina D, deixando laboratoristas e clínicos incertos de como implementar e interpretar corretamente o teste.

Na verdade, o que comumente chamamos de vitamina D, tem duas formas diferentes: a vitamina D2 e a vitamina D3. Como alguns acreditam, erradamente, que a 25-hidroxivitamina D2 ou 25-hidroxivitamina D3 é o mesmo que 25-hidroxivitamina D ou 1,25-hidroxivitamina D, comentários sobre cada forma da vitamina D pode tornar claro suas diferenças.

Há dois modos principais de a vitamina D ser obtida pelo organismo, através da pele e através da dieta. Assim, a vitamina D3, que também é conhecida como colecalciferol (que deriva do colesterol), é a 25-hidroxivitamina D3 e é sintetizada pelos seres humanos na pele quando é exposta à radiação ultravioleta B (UVB) da luz solar. Ela não é biologicamente ativa e, portanto, tem que ser transportada ao fígado onde é convertida em uma forma de armazenamento de vitamina D chamada de 25-hidroxivitamina D (25-OH vitamina D) ou calcidiol. É esta forma de vitamina D que é medida no sangue para saber se há ou não deficiência de vitamina D. Níveis baixos podem levar a um enfraquecimento ósseo, que nas crianças é chamado de raquitismo e no adulto de osteomalácia. A osteomalácia pode levar a osteoporose.

A vitamina D2 também é conhecida como ergocalciferol, calciferol ou, simplesmente, vitamina D, e é sintetizada pelas plantas. A ergocalciferol ou vitamina D2 é a 25-hidroxivitamina D2 e é semelhante ao colecalciferol. É usada em suplemento dietético e não é convertida em calcidiol tão eficientemente quanto o colecalciferol.

O calcidiol ou 25-hidroxivitamina D, que é a forma de armazenamento da vitamina D, pode ser convertido pelos rins em uma forma biologicamente ativa da vitamina D chamada 1,25-hidroxivitamina D ou calcitriol. Esta forma de vitamina D promove a absorção do cálcio e do fósforo no intestino e ajuda a equilibrar seus níveis sanguíneos. Ela também interage com a glândula paratireóide na produção dos hormônios paratireoides, portanto atua como um regulador da formação óssea. Além disso, ela participa do crescimento celular normal e na função de nervos e músculos. O calcitriol também é necessário para um sistema imunológico saudável e pode ajudar na redução dos processos inflamatórios. Entretanto, como seus níveis sanguíneos são estritamente controlados pelo organismo, ela não é a forma ideal de vitamina D para avaliar ou monitorar sua deficiência. Na verdade, os níveis de calcitriol podem permanecer normais enquanto os níveis de calcidiol já se encontram diminuídos.

A deficiência de vitamina D é mais prevalente do que se pensava. Indivíduos que vivem em latitudes mais baixas, ou seja, mais próximos da linha do equador, são mais expostos à luz solar do que os que vivem em latitudes mais altas. A incidência de câncer é realmente superior em áreas do globo de maior latitude. A vitamina D também vem sendo reconhecida como um importante fator nos mecanismos de transdução de sinal em vários órgãos como o cérebro, próstata, mama, e cólon, assim como células do sistema imunológico. Esses órgãos têm um receptor para 1,25-hidroxivitamina D.


FONTES DE VITAMINA D

As principais fontes de vitamina D são a luz UV (3.000 UI de D3/5-10 minutos), o salmão (1.000 UI de D3/100 grs.), o cogumelo shiitake seco (1.600 UI de D2/100 grs.).

Existem diversos tipos de suplemento de vitamina D, mas o único aprovado pelo FDA americano para prescrição é o Ergocalciferol (vit. D2).


VALORES DE REFERÊNCIA PARA CARACTERIZAR DEFICIÊNCIA E INTOXICAÇÃO

Não há consenso sobre o intervalo de referência adequado para o estado ideal, bem como para os cut-offs que caracterizam deficiência ou toxidade.

O intervalo de referência para vitamina D foi arbitrariamente definido por especialistas para estar entre 30 e 100 ng/mL, sendo a faixa ideal de 40 a 60 ng/mL. Níveis entre 21 e 29 ng/mL são considerados insuficientes e os valores abaixo de 20 ng/mL são deficientes. Embora, os níveis máximos são considerados de 100 ng/mL, os sintomas da toxidade aparecem quando os níveis estão acima de 150 ng/mL e compreende náusea, vômito, perda de apetite, constipação, aumento da frequência urinária, polidpsia, desorientação e perda de peso. Sob essas premissas estima-se que haja cerca de 1 bilhão de pessoas no mundo que são deficientes em vitamina D.

O problema do intervalo de referência para a vitamina D é que a amostra de referência variará de acordo com o lugar onde o indivíduo mora, seu perfil e se é inverno ou verão. A vitamina D é mais ou menos como os níveis de colesterol, onde não se está olhando para o que é “normal”, mas para o que é ideal ou desejável.


MÉTODOS DE DOSAGEM DE VITAMINA D

A determinação analítica da vitamina D é realizada por dois motivos principais: para determinar o estado nutricional da vitamina D e para monitorar a terapia.

Conforme já mencionado acima, a concentração de 25-OH vitamina D está diretamente relacionada ao estoque de vitamina D do organismo, enquanto a 1,25-OH vitamina D, que é o metabólito ativo, tem sua concentração relacionada mais com a função renal do que com deficiência de vitamina D.

Os ensaios atualmente disponíveis no mercado são:

1. Ensaios de Ligação

  • Radioimunoensaio (RIA)
  • Enzimaimunoensaio (ELISA)
  • Quimioluminescência (CLIA)
  • Eletroquimioluminescência (ECL)

2.  Ensaios Químicos

  • HPLC-UV (Cromatografia Líquida de Alta Performance acoplada a um Detector de Ultra-Violeta)
  • GC-MS (Cromatografia Gasosa com Espectrometria de Massa)
  • LC-MS/MS (Cromatografia Líquida acoplada a Espectrometria de Massa)

Os ensaios de ligação fornecem a concentração total de vitamina D, enquanto os químicos podem determinar a concentração das vitaminas D2 e D3. Ressalta-se que a concentração total de vitamina D tem sido a única medida disponível por anos e é amplamente aceita.

A especificidade e precisão dos métodos são muito variáveis. Os ensaios de ligação dependem muito da especificidade do anticorpo utilizado, ou seja, sua capacidade de reconhecer D2 e D3.

Atualmente, os imunoensaios (CLIA, ELISA e ECL) são muito populares e utilizados em muitos laboratórios. Através de sistemas automáticos eles permitem o processamento de várias amostras simultaneamente.

Aos interessados em maiores informações sobre a determinação de 25-OH vitamina D podem ser obtidas no artigo de Hollis, Am J Clin Nutr 2008; 88 (suppl): 507S-10S.

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